quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

HENRIQUE- AUDACIOSO, OUSADO E SEDUTOR

   No início dos anos 80, quando eu morava nas imediações do Canto da Fabril, São Luís, MA, eu conheci uma pessoa cujo nome era Carlos Henrique Mafra, nos tornamos grandes amigos, não sei por onde ele anda hoje, mas foi o cara mais audacioso e sedutor que já conheci. Ele era extremamente corajoso. Ele era também um verdadeiro bom vivant e até mentiroso, porém eu tinha o maior prazer em andar com ele nos nossos dias e noites de farra no bar ponto de fuga, Praça Deodoro e Sá Viana. Onde o Mafra estava as coisas aconteciam. Em geral, somos tímidos. Queremos evitar tensões, conflitos e agradar a todo mundo. O Henrique não era assim, tensão era o seu forte. Às vezes ficamos assustados com as consequências das nossas atitudes, ficamos preocupados com o que os outros vão pensar de nós. Mas o Henrique gostava de despertar hostilidade para depois lidar com ela. Embora possamos disfarçar nossa timidez como uma preocupação com os outros, um desejo de não ofender ou magoá-los, na verdade é o contrário, estamos preocupados realmente é com nós mesmos, ou com a imagem que os outros fazem de nós. Mas o Henrique Mafra era diferente, a sua preocupação era ganhar a vida sem fazer muito esforço, sem furtar ou roubar, mas fazer com que as pessoas dessem a ele o que queria e ainda agradecê-lo. O Henrique era pai de santo, professor, promotor de justiça, médico e delegado da polícia federal. Toda vez que saíamos ele era uma autoridade ou profissional diferente. Ele gostava de usar roupas brancas ou azul royal. Ele era sedutor e atrevido. Corajoso e bandido. Porém, ele não era um bandido qualquer, era um cara intrépido e autoconfiante, um “bandido” muito legal. A pessoa corajosa tem moral forte e firmeza de espírito. A coragem é direcionada para fora, e costuma fazer as pessoas se sentirem mais à vontade, visto que é menos reservada e menos reprimida. Todo homem corajoso é admirado. O Henrique Mafra era sedutor e todo grande sedutor vence pelo atrevimento. A audácia do Henrique não se revelava apenas na ousadia de conquistar as mulheres, mas na ousadia de conquistar qualquer pessoa. quando o Henrique desejava uma mulher ele lançava para ela audaciosas palavras de elogio inigualável, ele tinha a capacidade de se entregar a ela totalmente e fazê-la acreditar que faria qualquer coisa por ela, até arriscar a própria vida o que de fato fez algumas vezes. Um dia pegamos um taxi para o Sá Viana, no caminho o carro pifou, acho que algo relacionado com a bateria. Chuviscava. Todo mundo desceu do carro, mas a Marta Flor, sua namorada, ele não permitiu que ela descesse do veículo. Empurramos o carro com ela dentro. Um dia de carnaval na Madre Deus, um indivíduo, numa crise de ciúmes, puxou um revólver para atirar numa moça que conversava com ele. Vou te meter bala, sua cachorra! Disse o ciumento. O Henrique abriu os braços na frente da jovem e disse em voz alta: “oh, meu amigo, atire em mim, pois sou eu o culpado por ter puxado uma prosa com a sua namorada, mas mesmo à beira da morte, peço perdão”. O ciumento baixou a arma e se retirou do salão. A mulher a quem o Henrique dedicava as suas atenções compreendia que ele não estava escondendo nada. Isto era infinitamente mais enaltecedor do que elogios. Em nenhum momento durante a sedução ele mostrava hesitação ou dúvida, simplesmente porque ele nunca sentiu isso. O Henrique era descarado, não sentia constrangimento por seus atos censuráveis, era desfaçado, sem-vergonha, imprudente, mas no final de um dia de farra a conta era dele, ninguém punha a mão no bolso para pagar nada. Porém, quando estava liso, não queria sair. Dizia: estou liso hoje, podem ir, mas nessa hora todos diziam: tu tens que ir, senão o passeio não vai prestar, ele simplesmente dizia: então vamos, mas raramente Henrique estava liso. Na verdade, parte do encanto de estar sendo seduzido é que nos faz sentir envolvidos, temporariamente fora de nós mesmos e das dúvidas habituais que permeiam as nossas vidas. No momento em que o sedutor hesita, quebra-se o encanto, porque nos tornamos conscientes do processo, do seu esforço deliberado para nos seduzir, pois às vezes caímos conscientes no mundo da ilusão porque é um mundo adorável. O sedutor é corajoso e mantém viva a ilusão no próprio coração e no coração dos outros. A coragem não induz à deselegância ou embaraço, a coragem liberta os medrosos. O Henrique era corajoso. Todo mundo admira o corajoso, todos nós preferimos ficar perto do corajoso porque a sua autoconfiança nos contagia e nos arranca do nosso próprio reino de introspecção e reflexões. O Henrique era assim e são raros os que nascem ousados como ele. Acho que toda pessoa deveria praticar e desenvolver a sua ousadia. Sempre aparecerá uma ocasião para usá-la. O Mafra era professor por vocação, mas não sei onde ele se formou. Era delegado de polícia, mas nunca prendeu ninguém. Era curandeiro, mas nunca curou ninguém. Era promotor de justiça, mas nunca acusou uma pessoa. Era médico, mas nunca medicou. Mas por que ele era amado por todos e tinha uma vida livre? Era ousado. O melhor lugar para começar quase sempre é o delicado mundo das negociações, particularmente aquelas discussões em que lhe pedem para fixar o seu próprio preço. Quantas vezes nos desvalorizamos pedindo muito pouco? O Mafra vivia como queria, exerceu várias profissões apenas para testar a capacidade do atrevimento, da audácia, do cinismo, do desaforamento, do descaramento e da petulância, mas extremamente conservador, era honesto. Moral da história: Todos nós temos fraquezas e nossos esforços nunca são perfeitos. Mas agir com audácia tem a magia de ocultar as nossas deficiências. Não seja como o Henrique Mafra, mas seja audacioso.

CARTA AO MEU SEGUNDO PAI




               Meu querido pai de criação CLEMENTINO DA SILVA PINTO, aproveito essa oportunidade para lhe dar as minhas notícias e ao mesmo tempo saber das suas. Quando você faleceu em 1983, lá no estado do Pará, mais precisamente na Serra pelada, foi o pior dia da minha vida, você sabe o quanto sofri, mas como você mesmo dizia, tudo na vida passa. Contudo ainda lembro vários conteúdos das cartas que você me escrevia e da vida que vivemos juntos; alguns envelopes colei em alguns dos meus livros para preservar a suas belas letras. Agradeço pela paciência que você sempre teve comigo na minha infância, pela forma que me protegia e me defendia, pelos elogios que você sempre me fazia, (que eu era o menino mais bonito do povoado e o mais inteligente, e eu acreditava cegamente!) AGRADEÇO por você ter me feito o melhor aluno da escolinha de dona Mendu lá no povoado de Boa Vista, em Bacabal, agradeço por você ter me ensinado, ainda fora da educação escolar formal, as quatro operações de conta (somar, subtrair, dividir e multiplicar), AGRDEÇO pela primeira aula de inglês quando você me ensinou a escrever WASHINGTON; lá na escola eu era o único aluno que sabia escrever “UÓCHINTON” ; agradeço pelas pescarias que você me levava; pelos gongos de coco babaçu que você me ensinou a comer fritos; pelas arapucas que você fazia para pegarmos nambu e siricora; daquele cavalo que seu Chico Melo, dono da fazenda, lhe deu, você lembra? Ele corria 100 metros e caía no chão, aquele que tinha um defeito nas juntas?!  Agradeço pelas belas previsões que você fazia do meu futuro, deu tudo certo, sou doutor, advogado criminalista, mamãe e meus amigos mais próximos dizem que sou muito bom, já fiz várias centenas de júris em São Luis, em Bacabal e em várias cidades do nosso estado, eu falo do mesmo jeitinho que você me ensinou e dar tudo certo; Você lembra daquele livro que eu chamava livro de Maria Clara que eu levei um dia para você ver e comprar um para mim? Que você disse que não existia mais? O professor Benito Andrade me disse que tem um na sua biblioteca...Puxa! às vezes fico chateado quando me lembro que  você dizia que estava me ensinando a ler para eu ser um doutor e comprar um carro para irmos na terra onde você nasceu...que eu ia comprar um JEEP novo para viajarmos, mas você não esperou...a vida não quis esperar...isso é muito chato...hoje estamos vivos...amanhã estamos mortos!...sonhos não são realizados...promessas não são cumpridas...já um montão de livros sobre a vida e a morte e continuo confuso...não entendo porque você morreu logo...com certeza iríamos passear de carro, pois você nem sabe!...comprei um carro mesmo como você disse, mas e daí!? Você não está mais aqui! Você lembra a copa do mundo de 1970, gooooooll de Jairzinho! Goooooooll de Pelé que ouvimos no rádio do nosso vizinho CHICÃO. Tudo aquilo mudou, agora assistimos pela televisão e internet, acredite, dá para ver até as espinhas no rosto dos jogadores é uma imagem perfeita, comprei uma novinha são baratas e tem de todo preço, o Brasil melhorou muito daquele tempo para cá...já existe internet é algo inacreditável que usamos aqui através de umas máquinas chamadas computadores...acontece uma coisa nos Estados Unidos e sabemos aqui na mesma hora, você acredita!? Acho que a internet vai a todos os lugares do universo, é por isso que mando esta carta para você através dela. Se você ler me responda...aguardo sua resposta. Nunca me esqueci de você, meu eterno pai, amigo e professor. Se você já sabe dessas novidades que contei daí da eternidade, desculpe-me, pois aqui ainda não sabemos nada sobre a outra vida.  FELIZ DIA DE FINADOS!